IOM
HAATZMAUT – Uma data Cívica ou Religiosa?
Por
Rabino Moshe Bergman
Na
primeira semana do mês de Yiar, dei uma aula na Sinagoga do BNEI AKIVA de
Higienópolis sobre a importância de comemorarmos o Iom Haatzmaut como as
demais Festas do calendário judaico, e as reações foram surpreendentes.
Isto
se deve a que, a maioria das pessoas, consideram Pessach ou Chanucá datas
religiosas por excelência, enquanto Iom Haatzmaut, o dia da proclamação da
independência do Estado de Israel, é considerado uma data meramente cívica.
Tentarei
nestas linhas expor e explicar os fundamentos desta colocação, conforme
estabelecido pelo Rabinato Chefe de Israel no ano da fundação do Estado.
Uma
das bases centrais e fundamentais do Judaísmo é o dever de louvar a Deus por
um milagre ou graça obtido. Toda pessoa que atravessa em paz o mar ou o deserto
deve louvar e agradecer a Deus perante a congregação, conforme ensina o
Salmista (107: 21-22): “Louvai ao
Eterno por sua bondade e pelas maravilhas que realiza em favor dos seres
humanos. Tragam oferendas em ação de graças e com júbilo exaltem Suas
obras”
E
realmente assim o fazemos ao proclamar a benção Hagomel na hora da leitura da
Torá, na Sinagoga.
Da
mesma forma, uma pessoa que sobrevive a um grave acidente de carro, por exemplo,
deve preferir uma benção especial (“Bendito sejas Tu, Eterno nosso Deus, Rei
do Universo, que realizaste um milagre para mim neste local”) toda vez que
passar naquele local.
E
não só ele: seu filho e neto também
(vide Shulchan Aruch –
Código de Leis Judaica - capítulo 218 parágrafo 4).
Quem
se recorda da situação vivida em Israel em 1948, certamente reconhece o grande
milagre ocorrido naqueles dias. Eram quase meio milhão de judeus contra mais de
40 milhões de árabes hostis, armados e treinados, que o cercavam.
Objetivamente falando, as chances de sobrevivência do recém-criado Estado eram
nulas. O resultado previsto era o mesmo da finada comunidade judaica de Hebron,
massacrada impiedosamente pelos árabes em 1939.
A
salvação dos habitantes de Israel naquela época foi de uma morte certa para a
vida, e inclua-se aí todos os judeus, pois Israel transformou-se num porto
seguro para toda a Diáspora, freqüentemente abalada por ondas de
anti-semitismo.
Além
do aspecto físico a fundação do Estado de Israel constituiu a redenção
espiritual do povo judeu. Com a destruição do centros judaicos da Europa
durante o Holocausto e o vácuo espiritual resultante desta catástrofe,
caracterizado pelo alarmante nível de assimilação que grassa em todas as
comunidades judaicas da Diáspora
até
os nossos dias, a fundação do Estado de Israel e sua conseqüente transformação
em centro espiritual do povo judeu, reverteu esta situação. Jamais o povo
judeu teve tantas Yeshivót
em
funcionamento, sábios em Torá, Rabinos com poder de decisão em questões haláchicas
e estudantes de Torá como hoje em dia, em Israel. Além disso, centenas de
Centros de Estudos, universidades que lecionam Talmud e filosofia judaica e
cursos de identidade judaica dedicados à preservação e difusão do judaísmo
em Israel e na Diáspora, através do envio de emissários especialmente
treinados para este fim. E difícil encontrar um rabino em qualquer parte do
mundo que não tenha feito parte de seus estudos em Israel. Em suma, é difícil
sequer imaginar a situação espiritual do povo judeu hoje se não fosse a fundação
do Estado de Israel.
Torna-se
óbvio que a fundação de Israel – um fato que, há 100 anos, era considerado
um mero devaneio de Theodor Herzl - constitui uma indiscutível salvação
milagrosa do povo judeu. E como dissemos no início, é nosso dever,
religiosamente falando, louvar a Deus por cada grande fato que nos acontece.
Mencionamos
acima como deve-se proceder quando acontece um fato milagroso a alguém em
particular.Mas quando o fato acontece a um grupo de pessoas, a literatura
judaica está recheada de exemplos claros de como deve-se proceder a fim de
transformar esta data em uma festa de louvor a Deus.
A
finalidade da fixação das festas de Chanucá e Purim era, como rezamos na
prece “Al Hanissim”, “a fim de que posamos dar agradecimentos a Teu Nome
por Teus milagres, obras maravilhosas e salvação.” O Talmud (meguilá 14a)
explica que os sábios da época de Ester e Mordechai deduziram a obrigação de
instituir a festa de Purim da própria Tora; “Se no êxodo do Egito, ao saírem
da escravidão para a liberdade, declaram um cântico na travessia do mar, ao
escaparem da morte certa para a vida, não é lógico que tenham de celebrar? O
Talmud acrescenta ainda que a prece de “Halel” não foi instituída então
devido ao milagre de Purim ter acontecido fora da Terra de Israel.
Desta
passagem do Talmud inferimos a obrigação do povo judeu de fixar uma data
festiva, com a recitação da prece de louvor (Halel) por eventos miraculosos
que ocorram na Terra de Israel.Saliente-se que em Purim rendemos graças pela
salvação física, em Chanucá pela espiritual, enquanto em Iom Haatzmaút por
ambas!
Na
verdade, se analisamos com seriedade a vasta literatura judaica, encontraremos
80 festas de “Purim” diferentes, instituídas por diversas comunidade ao
longo dos séculos, para celebrar uma salvação específica (vide Shut Maharam
Alshacar 49, Shut Chatam Sofer 191 e Maguem Avraham sobre o Shulchan Aruch 686).
A
conclusão de todos o exposto acima é que celebrar o Iom Hatzmaút, assim como
o Iom Ierushaláyim, pelos milagres ocorridos na guerra dos seis dias, em 1967,
é uma obrigação rigorosamente religiosa, semelhante a de celebrar Purim e
Chanucá. O verdadeiro sentido do Iom Haatzmaut não é outro senão porque
“Imenso é nosso regozijo pelas maravilhas que fez por nós o Eterno.”
Antes
de concluir, cabe salientar que o próprio Talmud (meguilá 7a) registra que,
quando a rainha Éster decidiu instituir a celebração de Purim, boa parte dos
sábios de sua época negaram-se a fazê-lo, no início, pois não queriam
inovar uma festa que não constava na Torá. Só concordaram depois de
acalorados debates. O livro de Éster (9: 29) relata o mesmo com relação ao
povo, até que se difundiu e enraizou-se o costume. Com relação a Chanucá,
encontramos inúmeras controvérsias nas primeiras geração após o milagre
sobre como acender as velas, quantas velas, etc.
Com
o povo judeu é assim mesmo: é difícil estabelecer novos decretos e decisões,
mesmo legítimas.
Mesmo
que leve algum tempo, no final o Iom Haatzmaút acabará se enraizando e se
tornará uma festa de louvor comemorada tanto pelo público religioso como pelo
laico.
“Louvai
ao Eterno, porque Ele é bom; eterna é Sua misericórdia” (Salmos 107: 1).