BNEI AKIVA - SÃO PAULO

Reflexões sobre a Parashát hashavua

Por Rav Moshe Bergman

Parashát Shemini - 24/Nissan/5762 – 06/abril/02

Haftará: 2 Samuel 6
Neste Shabat, abençoamos o rosh chodesh Iyar, que tem início na próxima 6ª feira e Sábado.

Novilúnio (molád) : molad: Sexta, 15 h 14 min 5 partes

Na terça-feira, dia 27 de Nissan (9/4),  o Estado de Israel assinalará o Dia do Holocausto e do Heroísmo.

  

HÁ DIFERENÇA ENTRE UM VENDEDOR DE PERFUMES E UM LIXEIRO?

Ouvi uma vez uma história a respeito de um homem que era dono de uma das melhores perfumarias da cidade. Inúmeras pessoas vinham à sua loja comprar os perfumes de excelente qualidade que ele vendia. Todo cliente recebia amostras grátis e havia constantemente e sensível, que estava acostumada aos melhores odores, não podia mais suportar um cheiro tão terrível.

um delicioso aroma na loja. Certo dia, o dono da loja saiu de sua casa um pouco mais cedo e passou ao lado de um caminhão de lixo que, naquele momento, ali se encontrava. Ao sentir o mau cheiro do lixo, desmaiou. Sua alma delicada

Passaram-se anos e a roda da fortuna virou. O homem perdeu muito dinheiro e ficou totalmente arruinado sendo obrigado, finalmente, a fechar sua loja. O único trabalho que conseguiu encontrar para seu sustento foi o de lixeiro. Ele estremeceu ao se lembrar como, no passado, havia desmaiado ao sentir o mau cheiro do lixo mas, sem outra opção, acabou aceitando o trabalho. No começo, sofreu muito e quase nem conseguia respirar direito, voltando para casa com dores de cabeça terríveis, decorrentes do mau cheiro. Com o tempo, acostumou-se. Esqueceu por completo sua situação anterior. O cheiro do lixo passou a ser parte integrante e corriqueira de sua vida e ele nem mesmo se lembrava que existia uma outra realidade. Às vezes, ao voltar para casa, nem mesmo via necessidade de mudar de roupa. Quando leu uma história a respeito do dono de uma perfumaria que tinha desmaiado devido ao cheiro do lixo, riu sem compreender como era possível desmaiar por causa de um cheiro tão normal e natural. Ele não mais distinguia entre o aroma do perfume e o cheiro do lixo.

Anos depois, o homem conseguiu enriquecer novamente e surgiu a oportunidade de comprar sua antiga perfumaria. Entretanto, ele se recusou e não conseguiu compreender o espanto de seus amigos. Não entendia qual era o problema e por que a perfumaria era preferível à coleta de lixo. Tinha se acostumado tanto a conviver com aquele cheiro que não sentia mais nenhuma imperfeição e sensibilidade em sua alma.

Por meio desta analogia, podemos entender o significado do prejuízo que é causado às nossas almas pelo alimento não casher. Na nossa parashá, a Torá adverte que todo aquele que come um alimento não casher torna sua alma impura: “Não torneis abomináveis vossas almas com nenhum réptil que se move; não vos façais impuros com eles e não sejais impuros por eles” (Levítico, 11:43). A Guemará (Yomá, 39) explica que o alimento não casher embrutece a alma humana e o indivíduo acaba obstruindo-a de toda compreensão correta das coisas divinas e excelsas. Todos nós acreditamos no médico quando este nos adverte dos alimentos prejudiciais à saúde. Também o Criador da alma humana sabe o que causa prejuízo a ela e a envenena, o que a impede de santificar-se e purificar-se de toda a imundície do mundo material.

Às vezes, as pessoas alegam não entender a importância da observância da cashrut. Há muitos anos que não são meticulosos no cumprimento deste preceito e não viram nenhum prejuízo ocasionado por isso. Este argumento assemelha-se à situação do dono da perfumaria. Anos de trabalho na coleta de lixo fizeram com que sua alma se acostumasse ao mau cheiro terrível. Ela perdeu a delicadeza e a sensibilidade e o homem não entende por que este caminho é inconveniente e prejudicial.  Também a alma daquele que se acostumou à comida não casher perde sua delicadeza. Tendo mergulhado na impureza, não consegue distinguir o prejuízo que a ela é causado.

Quando uma pessoa ingere um veneno que faz mal ao seu organismo, nem sempre vê a conseqüência de imediato. Às vezes, o veneno penetra lentamente e a pessoa acaba morrendo em decorrência de uma doença, sem saber que o veneno ingerido foi o causador de sua morte. Por isso, quem respeita seu corpo evitará comer coisas contra as quais os médicos advertem. Aquele que tem amor por sua alma impedirá que ela se corrompa, evitando comer o que o Criador do Universo proibiu.

Na realidade, o prejuízo causado pelo veneno da alma é muito maior. O veneno do corpo o destrói somente neste mundo passageiro, mas o veneno da alma corrompe nossa alma também no mundo eterno. O indivíduo não poderá receber e absorver adequadamente a emanação e a bondade divinas.

É extremamente irônico o fato de alguém se apresentar como rabino e, ao mesmo tempo, comer ele próprio taref (comida não permitida pelos preceitos judaicos). A Torá diz que esta pessoa nunca poderá compreender corretamente as questões divinas. Sem dúvida, ela própria errará e fará com que outros se desviem do caminho certo. Toda decisão e arbitragem baseadas na Lei judaica decretadas por esta pessoa serão erradas e ela apenas falsificará e deturpará os ditos da Torá sagrada.

Um indivíduo toma um remédio do qual seu corpo precisa, ainda que o preço seja caro. Não há nada mais caro para o homem do que sua saúde. Aquele que não compra o remédio a fim de “punir” a farmácia, acaba morrendo e prejudicando a si próprio. Do mesmo modo, também o preço da comida casher não pode dissuadir quem atribui importância à saúde de sua alma.

A todo aquele que preserva a saúde de sua alma, a Torá promete: “Vos santificareis e sereis santos, porque Eu sou santo”(Levítico, 11:44).

Shabat Shalom!